Aracaju amanhece nesta sexta sob um daqueles movimentos que parecem simples no calendário, mas carregam peso de símbolo. O lançamento oficial da programação do Forró Caju 2026 não representa apenas a divulgação de uma agenda de shows; representa, na prática, a abertura pública de uma disputa por memória, turismo, identidade e protagonismo cultural. Quando a Prefeitura escolhe abril para apresentar aquilo que o público só viverá plenamente em junho, a mensagem é clara: o São João deixou de ser apenas uma festa que acontece e passou a ser um projeto que se constrói com antecedência, estratégia e ambição. A própria gestão municipal vinha preparando esse terreno desde o início do ano. Em janeiro, a prefeita Emília Corrêa reuniu o secretariado para alinhar o calendário oficial de 2026, com foco em organização, eficiência orçamentária e impacto positivo no turismo e na economia; em fevereiro, a Prefeitura voltou a defender a divulgação antecipada dos grandes eventos como forma de colocar Aracaju de maneira mais competitiva na rota nacional, reforçando que o Forró Caju seguiria como um dos principais motores culturais do mês de junho. Por isso, a cerimônia desta manhã, com presença anunciada também do secretário municipal da Cultura, Paulo Corrêa, e do presidente da Fundação Cultural Cidade de Aracaju, Aldir Ferreira, ganha contornos maiores que os do protocolo: ela funciona como um teste de visão de cidade. O que será apresentado ali não dirá apenas quem sobe ao palco, mas também como Aracaju pretende vender a si mesma para o Brasil, como quer acolher o turista, como deseja distribuir renda entre ambulantes, comerciantes, artistas e trabalhadores do setor de serviços, e de que maneira pretende equilibrar tradição e espetáculo sem esvaziar o sentido popular da festa. O Forró Caju, afinal, não sobrevive por ser grande; ele se mantém grande porque, ano após ano, tenta convencer a população de que ainda pertence a ela.

E há razões concretas para que a expectativa de 2026 seja alta. Em 2025, a Prefeitura de Aracaju apresentou uma edição robusta do Forró Caju, com 132 atrações distribuídas entre 30 de maio e 29 de junho, em formato descentralizado, levando apresentações para a Praça Hilton Lopes, Praça Fausto Cardoso, conjunto Augusto Franco e bairros como Bugio, Lamarão e América. Mais de 60% — e em outros balanços, mais de 65% — dos artistas eram sergipanos, dado que a gestão usou para sustentar a narrativa de valorização da cultura local. O impacto não ficou restrito ao discurso institucional: segundo o balanço oficial, mais de 350 mil pessoas passaram pelos shows ao longo do período, e a cidade registrou, em junho, arrecadação de R$ 72 milhões em ISSQN e ICMS, com crescimento de 12,5% em relação ao ano anterior, além de reflexos em mais de 100 atividades econômicas ligadas ao comércio, à alimentação, à hotelaria, ao turismo e aos serviços. Em 28 de junho, numa das noites mais emblemáticas da edição passada, Wesley Safadão, Limão com Mel e Tarcísio do Acordeon estiveram entre as atrações principais, e o evento reuniu mais de 50 mil pessoas na Praça dos Mercados, com registro oficial de fechamento temporário dos acessos por medida de segurança diante da lotação. Não por acaso, o nome de Safadão surge novamente como foco da expectativa para 2026: além de ter sido um dos grandes chamarizes de público no ano passado, reportagem local publicada nesta semana, com base em informações da Prefeitura, relembrou que o retorno do artista para a nova edição já havia sido confirmado pela prefeita Emília Corrêa no palco do evento em junho de 2025. Mas o dado mais revelador talvez seja outro: o Forró Caju de 2025 já não foi apenas uma festa presencial. A transmissão oficial promovida pela Prefeitura alcançou quase um milhão de visualizações no YouTube, com média de 50 mil acessos por noite e picos de quase seis mil visualizações simultâneas, mostrando que a festa ultrapassou a lógica do palco e passou a operar também como produto de comunicação pública, ativo turístico e vitrine digital da cultura sergipana. É justamente por isso que o anúncio desta sexta-feira importa tanto. A pergunta central não é apenas quais nomes estarão no cartaz, mas que projeto de cidade estará por trás dele. Se Aracaju conseguir transformar a força popular do forró em planejamento, circulação econômica, visibilidade para artistas da terra e alcance nacional sem descaracterizar sua alma, o Forró Caju 2026 poderá ser mais do que uma nova edição bem-sucedida: poderá ser a prova de que tradição, quando tratada com inteligência, não envelhece — ela se expande.


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