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Entre clássicos, reinvenções e encontros improváveis: o repertório que transformou Copacabana em um mapa vivo da música global

Da memória afetiva aos novos discursos femininos, passando por colaborações brasileiras carregadas de simbolismo, show de Shakira revela como um setlist pode contar muito mais do que uma sequência de músicas

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Entre clássicos, reinvenções e encontros improváveis: o repertório que transformou Copacabana em um mapa vivo da música global
Foto: Divulgação

Se existe um elemento capaz de traduzir com precisão a dimensão de um espetáculo como o apresentado por Shakira em Copacabana, esse elemento é o repertório. Mais do que uma simples sequência de sucessos, o setlist funcionou como uma narrativa cuidadosamente construída — uma linha do tempo que atravessa décadas de carreira, diferentes fases estéticas e mudanças profundas na própria indústria musical. Em uma noite marcada por imprevistos e expectativas elevadas, foram as músicas — e principalmente a forma como foram apresentadas — que sustentaram o espetáculo e deram sentido à experiência coletiva de milhões de pessoas.

A escolha de abertura, no entanto, já indicava que a artista não seguiria necessariamente o caminho mais óbvio. Em vez de iniciar com um de seus hits globais mais reconhecidos, optou por uma faixa menos popular entre o grande público . Essa decisão, que pode parecer arriscada em um evento de massa, revela uma estratégia interessante: estabelecer um controle gradual da energia da plateia, criando um crescendo emocional ao longo do show. Em um ambiente onde muitos artistas apostam na explosão imediata para garantir engajamento, começar de forma mais contida pode ser visto como um gesto de confiança — tanto na própria obra quanto na capacidade do público de embarcar em uma jornada mais construída do que imediata.

Mas essa aposta inicial rapidamente deu lugar ao que o público esperava — e talvez exigia. À medida que o show avançava, começaram a surgir os primeiros acordes de músicas que atravessaram gerações, transformando a praia em um coro coletivo. “Hips Don’t Lie”, por exemplo, não é apenas um sucesso: é um marco cultural que sintetiza a fase em que Shakira consolidou sua presença global, misturando ritmos latinos com o pop internacional de forma quase definitiva. Quando executada ao vivo, especialmente em um ambiente com milhões de pessoas, a música deixa de ser apenas uma canção e se transforma em um ritual coletivo, onde cada verso é reconhecido instantaneamente.

Outro momento de grande impacto veio com “Whenever, Wherever”, uma das músicas que ajudaram a introduzir a artista ao mercado internacional no início dos anos 2000. A performance dessa faixa, em um contexto tão grandioso, carrega um simbolismo particular: é como se o público estivesse assistindo, ao mesmo tempo, ao presente e ao passado da artista, conectando diferentes gerações que cresceram com aquela música. O mesmo pode ser dito de “La Tortura”, que marcou uma fase importante de experimentação com o reggaeton e ajudou a consolidar a presença de ritmos urbanos latinos no mainstream global.

Mas talvez nenhuma música tenha carregado tanto peso simbólico quanto “Waka Waka (This Time for Africa)”. Originalmente associada à Copa do Mundo de 2010, a faixa já nasceu com uma vocação coletiva — uma música feita para multidões. No contexto de Copacabana, ela funciona quase como um hino universal, capaz de unir pessoas de diferentes origens em um mesmo ritmo. A escolha de posicioná-la próxima ao final, criando uma falsa sensação de encerramento antes do retorno da artista ao palco , revela um domínio narrativo típico de grandes performers: conduzir o público por emoções previsíveis, apenas para subvertê-las em seguida.

E é justamente nesse retorno que entra um dos aspectos mais contemporâneos do repertório: as músicas mais recentes, especialmente aquelas associadas à fase atual da artista. Canções como “BZRP Music Sessions #53”, conhecida popularmente como a “música da loba”, representam uma ruptura em relação à imagem construída ao longo dos anos. Mais do que hits, essas faixas carregam um discurso — especialmente sobre independência, relacionamentos e identidade feminina — que dialoga diretamente com o momento atual da cultura pop. Ao encerrar o show com esse tipo de música, Shakira não apenas atualiza sua imagem, mas também reafirma sua relevância em um cenário musical em constante transformação.

No entanto, o repertório não se limitou à trajetória individual da artista. Um dos elementos mais marcantes da noite foi justamente a presença de convidados brasileiros, que transformaram o show em uma espécie de celebração multicultural. A participação de Anitta, por exemplo, não foi apenas uma colaboração pontual: foi um encontro simbólico entre duas artistas que representam diferentes momentos da internacionalização da música latina. Enquanto Shakira abriu caminhos no início dos anos 2000, Anitta representa uma geração que já nasce inserida em um mercado globalizado, onde as barreiras linguísticas são cada vez menos relevantes.

Ivete Sangalo, por sua vez, trouxe ao palco uma energia tipicamente brasileira, marcada por uma relação direta e intensa com o público. Sua presença adiciona uma camada de festa e espontaneidade que dialoga perfeitamente com o ambiente de Copacabana, reforçando a ideia de que o show não é apenas um espetáculo importado, mas um evento que se integra à cultura local. Já Caetano Veloso e Maria Bethânia representam algo ainda mais profundo: a conexão com a tradição musical brasileira, com uma carga simbólica que transcende o entretenimento e toca em questões de identidade cultural.

A presença de Maria Bethânia, em particular, merece destaque. Sua voz, frequentemente descrita como única, cria um contraste interessante com o universo pop de Shakira . Esse contraste não é um problema — pelo contrário, é o que torna o encontro tão poderoso. Em um cenário dominado por batidas eletrônicas e efeitos visuais, a entrada de uma voz carregada de história e interpretação cria um momento de pausa, quase de contemplação, dentro do espetáculo.

Outro elemento que reforça essa mistura cultural é a participação da bateria da Unidos da Tijuca. Mais do que um recurso visual ou sonoro, a presença de uma escola de samba insere o show em um contexto profundamente carioca, aproximando-o das grandes manifestações culturais da cidade. O ritmo do samba, integrado às músicas da artista, cria uma fusão que vai além da simples adaptação — é uma reinterpretação que transforma o repertório em algo novo, ainda que baseado em canções já conhecidas.

Essa capacidade de reinventar músicas conhecidas é, aliás, um dos pontos mais interessantes do espetáculo. Em um ambiente onde o público já chega sabendo o que esperar, o desafio não é apenas tocar os sucessos, mas fazê-los soar diferentes. Isso pode acontecer por meio de novos arranjos, fusões com outros ritmos ou simplesmente pela escala da apresentação. Ouvir uma música em um fone de ouvido é uma experiência; ouvi-la sendo cantada por milhões de pessoas ao mesmo tempo é outra completamente distinta.

Ao longo do show, essa diferença ficou evidente em diversos momentos. Canções que, em versões originais, têm uma estrutura mais íntima ou controlada, ganham uma dimensão quase épica quando executadas em um palco dessa magnitude. Isso se deve não apenas ao volume ou à quantidade de pessoas, mas à energia coletiva que se cria — uma espécie de amplificação emocional que transforma cada música em algo maior do que ela mesma.

No entanto, essa grandiosidade também levanta uma questão interessante: até que ponto o espetáculo se sobrepõe à música? Em um show repleto de efeitos visuais, participações especiais e elementos tecnológicos, existe o risco de que as canções se tornem apenas mais um componente dentro de uma experiência mais ampla. No caso de Shakira, o equilíbrio foi mantido, mas a pergunta permanece válida — especialmente em um momento em que a indústria do entretenimento parece cada vez mais orientada pela busca de impacto visual.

Ao final da noite, o que ficou não foi apenas a lembrança de um grande show, mas a sensação de ter participado de algo maior — uma experiência que mistura música, cultura, tecnologia e emoção em proporções difíceis de reproduzir. O repertório, com suas escolhas, surpresas e encontros, foi o fio condutor dessa experiência, transformando Copacabana em um espaço onde diferentes histórias musicais se encontraram.

E talvez seja justamente essa a maior conquista da noite: mostrar que, mesmo em um mundo dominado por algoritmos e consumo fragmentado, ainda existe espaço para experiências coletivas que transcendem o individual. Porque, no fim das contas, não são apenas as músicas que permanecem — é a forma como elas são vividas.

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No Caderno de Opinião da INSTAMag, a cultura ganha análise, reflexão e ponto de vista. Este espaço reúne críticas, comentários e interpretações sobre o universo do entretenimento, da música, do audiovisual, da arte, do comportamento e das tendências que movimentam a sociedade contemporânea. Com textos pensados para quem busca ir além da superfície, o caderno propõe um olhar mais profundo sobre os temas que influenciam a cultura pop, o mercado criativo e as expressões artísticas do Brasil, com atenção especial às vozes, cenas e movimentos que nascem no Nordeste. Aqui, especialistas, criadores, artistas e colaboradores compartilham perspectivas que provocam debates, ampliam leituras e inspiram novas formas de pensar a cultura.

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